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Em época outra, mesmo durante um período de forte repressão política, ainda havia expectativa positiva quanto a um Brasil melhor, mesmo porque o brasileiro acreditava em seus valores e os manifestava pela musicalidade, criatividade e alegria, como bem caracterizou uma peça teatral da década de 1970, BRASILEIRO, PROFISSÃO ESPERANÇA.

Passou-se o tempo e, atualmente, o que se observa é que cansado de só ter esperança – que conseguiram matá-la, por sinal – restou uma pobre realidade, recheada de violência e intolerância, onde até o direito constitucional de ir e vir é desrespeitado pela condição de refém do brasileiro das forças marginais.

 E neste aspecto, situações têm ocorrido no Brasil que em nada diferem daquelas que acontecem em regiões do mundo com alto risco de segurança e guerra civil declarada, onde as ações do Estado se tornam inócuas para a defesa das pessoas, igualmente como no Brasil.

Não obstante, se vê obrigado, o brasileiro, a uma avalanche de informações das ocorrências no país, invariavelmente ligadas a aspectos político/policial – não faltando ex-governadores, ex-deputados, ex-vereadores, ex-prefeitos, além de narcotraficantes e, para compensar, alguns ladrões de galinha - culminando com as análises da situação econômica – o Brasil virou o país dos economistas e advogados – que só fazem aumentar o grau de descrença e insegurança quanto a mudanças positivas em prol de sua gente.

Paralelamente, e contando com uma única opção de persuasão, o cidadão comum, no afã de tentar escolher alguém que o represente com dignidade, se frustra pela falta de empenho e compromisso de quem escolhido para esta tarefa, pois não raro são levados pelas mazelas de uma máquina publica corroída.

 

 

 

 

 

Carlos Roberto de Oliveira     

Uma sexta-feira de uma semana qualquer, próximo de um horário sugestivo – 11:30 horas – sem preocupações com quaisquer tipos de cobranças, seu destino estava traçado e o conduzia, irremediavelmente, a um local em cujo convívio normalmente o sentimento maior era o de liberdade e fraternidade: o boteco.

E ao adentrá-lo, como um ilustre desconhecido, a energia recebida era altamente positiva, e para melhor caracterizá-la, aumentando sua auto-estima, inclusive, precedido de um bom dia lá vinha uma expressão mágica, um tanto jocosa, mas válida: o doutor vai tomar o que?

Na retribuição do bom dia, e dentro do espírito de interatividade, a resposta ao pedido: um amargo e uma loira gelada.

Taí doutor uma bela composição cuja metamorfose transformará o amargo em doce e a loira gelada em uma agradável sensação de calor, disse o garçom.

E como que a aumentar a doçura e o calor, intermináveis “saideiras”...

Quando deu por si, a tarde começava a se despedir como que a sugerir uma noite feliz.

Carlos Roberto de Oliveira

Ao acordar, despertado que foi pelo som do rádio relógio, de chofre ouve que uma chacina de presos aconteceu no interior de um presídio no Estado de Roraima, após uma rebelião entre grupos rivais.  

Que noticia trágica logo ao amanhecer, repetindo outra ocorrida há poucos dias com outros presos, só que em Manaus, no Estado do Amazonas e com a mesma razão.

Ainda meio sonolento, desliga o rádio relógio e caminha em direção à sala onde liga a televisão. E para sua surpresa, o enfoque era o mesmo da noticia que ouvira há pouco pelo rádio, só que agora complementada com imagens e acrescida com noticias político/policiais.

Exaspera-se e, incontinenti, muda de canal, mas qual o que, tão igual ou pior, pois a pauta era a mesma.

Visivelmente incomodado, o apresentador lamenta os fatos então narrados e mostrados com riqueza de detalhes, e como que querendo dar uma trégua chama pelos comerciais.

E, entre outros apelos de venda de produtos, lá vem uma mensagem do supermercado Fartura com suas ofertas imperdíveis, a começar pela cerveja em lata “Loira Gelada” a R$ 1,20 a unidade, a vodca “Rasputin” a R$ 21,00 a unidade, e de quebra o sal grosso e o carvão que juntamente com a costela que farão seu final de semana mais feliz.

Voltando a programação normal, recomeça seu trabalho narrando um acidente havido em que uma senhora, já de certa idade, houvera sido atropelada por um carro cujo condutor estava sobre efeito de álcool.

Provavelmente alertado por alguém da produção do programa, mais do que rapidamente lembra aos tele-ouvintes para que, com moderação, não se esquecerem das ofertas do Supermercado Fartura...  

 

   

 

Carlos Roberto de Oliveira

Ao jovem não se deve negar o direito de sonhar, e àqueles que ousam levar adiante seus ideais, dos quais muitos deles são originários de seus próprios sonhos, merecem estes, no mínimo, ser ouvidos.

E como o Brasil, reconhecidamente, sofre já há algum tempo com a falta de lideres efetivamente comprometidos com sua gente de uma forma honesta, eis que, de repente, surge uma jovem adolescente, estudante, 16 anos, Ana Julia Ribeiro, encampando uma causa da qual acredita e, para isto, se põe, simbólica e incisivamente, contra o Estado por entender pertinente sua manifestação.

E ao fazê-lo, em um espaço considerado como a Casa do Povo, feriu suscetibilidades pela contundência de suas palavras.

E o que contestou esta jovem estudante? Simplesmente a sua não representatividade, por quem de direito, pela defesa de seus interesses individuais e coletivos e que estão voltados para a educação publica.

Afinal, se preocupar com a qualidade de ensino e, concomitante, com a possível retração de investimentos nesta área, é um ato de dignidade que deve ser considerado.

O mais importante, ainda, é sua ênfase quanto ao não envolvimento com qualquer movimento político/partidário, e, sim, com a política estudantil, fato este que lhe dá maior credibilidade em sua ação, fortalecendo-a mais ainda como cidadã.

Ah, os bons tempos de estudantes conscientes estão voltando.

Que saudades desse tempo.

Carlos Roberto de Oliveira