Depois de muito pelejar na clínica, acabei me estabelecendo como psicólogo de um colégio particular na capital. Uma escola notadamente da elite e que pagava muito bem. Nada do que eu presenciei desde os tempos de faculdade, desde as histórias cabeludas contadas pelos professores e por minha experiente terapeuta, nada me preparou para o que eu vou contar.

Como que a contrapor certa melancolia que o dia de Finados provoca, procurou por passá-lo em um espaço cuja energia recebida o induzisse a melhor referendá-lo, isto na tentativa de torná-lo mais leve quanto ao seu objetivo convencionado e que é o da lembrança, com carinho, daqueles que se despediram com antecedência, e partiram.

E, sem se dar conta, viu-se numa estrada ladeada por várias tonalidades de verde esparramando não só um visual exuberante como distribuindo um ar puro a invadir pulmões tão agredidos por agentes invisíveis e poluidores.

Receptivo a esta dádiva da natureza, uma agradável sensação tomou-lhe o corpo, promovendo uma espécie de conciliação da razão com a emoção.

À medida que avançava em seu percurso, atraído pelo ruído mágico representado pela queda de água de várias cascatas que formavam as Cataratas do Iguaçu, pode observar a continuidade do Rio Iguaçu se estendendo, a princípio agitado e depois calmamente, até atingir sua foz, confundindo-se com outras águas e com isto sugerindo sua transformação em uma nova vida.

 

 

 

Permitindo-se conceituar o que seja o tempo, e sem qualquer constrangimento em fazê-lo, o definia enquanto desafio, estupidez, enquanto espaços preenchidos, indução ao sentido da vida.

Irritava-o a preocupação de muitos em tê-lo – o tempo – como algoz, quando na realidade ele age como uma espécie de amigo fiel no processo da vivência.

Os que o contestam, chegando mesmo a não aceitá-lo, seja numa determinada fase da vida ou de forma constante, geralmente o fazem pelo fato de não ter tido sua companhia de forma a considerá-lo como agente transformador no processo de mudança que ele mesmo provoca em sua inexorável evolução, e, mais importante, sinalizando, ou sugerindo, que o tudo e o nada se confundem.

E da falta dessa percepção nasce uma frustração que muitas vezes embota a capacidade de não se dar ao tempo o seu devido valor que é representado, a rigor, pela oportunidade que ele oferece de vivê-lo da melhor maneira possível e, preferencialmente, tendo na utopia o porto seguro.

Carlos Roberto de Oliveira.   

Foi buscar, em Stéphane Hessel, escritor, ativista e diplomata nascido alemão e naturalizado francês, a expressão mágica que cada brasileiro necessita para recompor seu ativo pessoal, tão abalado por um sentimento de indiferença gerado por uma realidade mesquinha e confusa, e que se encontra em seu livro INDIGNAI-VOS.