Fim dos anos 80. O país se prepara para a primeira eleição presidencial direta após a ditadura militar. Apoiado pela mídia, desponta para o Brasil o governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello. Por manter um discurso enérgico de combate à corrupção e travar uma briga contra funcionários públicos alagoanos que recebem altos salários, passa a ser chamado de “Caçador de Marajás”.

De primeira viagem

- Me dá mais vinho?

- Não, você vai passar mal.

Depois de muito pelejar na clínica, acabei me estabelecendo como psicólogo de um colégio particular na capital. Uma escola notadamente da elite e que pagava muito bem. Nada do que eu presenciei desde os tempos de faculdade, desde as histórias cabeludas contadas pelos professores e por minha experiente terapeuta, nada me preparou para o que eu vou contar.

Lembranças o aprisionavam ao tempo passado e sem constrangimento a esse se curvava, dispensando inclusive projetar qualquer expectativa futura, por inócua.

Até os sonhos abandonara, ou por esses fora abandonado.

Não era uma revolta contra a vida, só uma constatação que tem, em Chaplin, uma verdade incontestável: “É sonhar em vão, tentar os outros iludir”...

Sentia-se bem, e totalmente à vontade em assim encarar seu cotidiano tendo por base essa diretriz, e mais, procurava no isolamento razões para criar seu próprio mundo, indiferente a qualquer colocação moralista, e não raras vezes, hipócrita.

Cansara de ser explorado, pois, salvo raras ocasiões, só era cobrado, como que só obrigações tivesse.

Enlouquecera? Talvez, só lamentava não ter tomado esta decisão há mais tempo.

E convicto, simplesmente concluiu que o sonho acabara, só restando o desafio de uma lamentável e triste realidade, que enfrentaria, sim, mas à sua maneira.

 

 

 

Carlos Roberto de Oliveira