Com graça e charme, praticava seu “jogging” vespertino diário despertando, por onde passava, olhares lascivos.

Soberana, deixava no ar um que de blindagem cujo escudo era seu próprio corpo, escultural, que emanando sensualidade provocava as mais diversas reações.

De bom mesmo do carnaval que passou, a destacar o registro de um filme documentário – Memória em Verde e Rosa – transmitido em um canal fechado de televisão enquanto transcorria o evento da folia do rei Momo e que conta a história de alguns personagens da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.

Comprometido com sua origem de interiorano, e com ela identificado, optou, em seu breve período anual convencionado como férias, resgatá-la.

O cenário não era aquele que a ocasião sugeria, o dia da Confraternização Universal.

Pelo contrário, poder-se-ia até dizer que o dia era o da indiferença, pois de coerente com o que fosse fraternidade, só o convívio daqueles pobres miseráveis esparramados pelo chão, em calçadas e sob marquises.

Alguns, mais privilegiados, com um papelão como colchão, outros nem mesmo isto tinham.

E, por incrível que pareça, havia solidariedade entre eles, seja na troca de um gole de cachaça por um cigarro ou algo para comer. E até um abraço amigo surgia.

Só não havia alegria.

O pouco de movimento nas ruas, tanto de pessoas como de veículos, normal naquele período de final de um ano e inicio de outro, mais acentuava o impacto da miséria humana, escancarando-a.

É de se questionar, e sem qualquer emoção barata, por que não diminuir aquele sofrimento exposto daquelas criaturas esquecidas do convívio social, recolhendo-as a uma prisão onde, pelo menos, se protegeriam da intempérie e, quem sabe, com um prato de sopa e alguma atividade laboral, pudessem se reciclar para uma vida sem uma morte anunciada.

Carlos Roberto de Oliveira