Uma sexta-feira de uma semana qualquer, próximo de um horário sugestivo – 11:30 horas – sem preocupações com quaisquer tipos de cobranças, seu destino estava traçado e o conduzia, irremediavelmente, a um local em cujo convívio normalmente o sentimento maior era o de liberdade e fraternidade: o boteco.

E ao adentrá-lo, como um ilustre desconhecido, a energia recebida era altamente positiva, e para melhor caracterizá-la, aumentando sua auto-estima, inclusive, precedido de um bom dia lá vinha uma expressão mágica, um tanto jocosa, mas válida: o doutor vai tomar o que?

Na retribuição do bom dia, e dentro do espírito de interatividade, a resposta ao pedido: um amargo e uma loira gelada.

Taí doutor uma bela composição cuja metamorfose transformará o amargo em doce e a loira gelada em uma agradável sensação de calor, disse o garçom.

E como que a aumentar a doçura e o calor, intermináveis “saideiras”...

Quando deu por si, a tarde começava a se despedir como que a sugerir uma noite feliz.

Carlos Roberto de Oliveira

Ao acordar, despertado que foi pelo som do rádio relógio, de chofre ouve que uma chacina de presos aconteceu no interior de um presídio no Estado de Roraima, após uma rebelião entre grupos rivais.  

Que noticia trágica logo ao amanhecer, repetindo outra ocorrida há poucos dias com outros presos, só que em Manaus, no Estado do Amazonas e com a mesma razão.

Ainda meio sonolento, desliga o rádio relógio e caminha em direção à sala onde liga a televisão. E para sua surpresa, o enfoque era o mesmo da noticia que ouvira há pouco pelo rádio, só que agora complementada com imagens e acrescida com noticias político/policiais.

Exaspera-se e, incontinenti, muda de canal, mas qual o que, tão igual ou pior, pois a pauta era a mesma.

Visivelmente incomodado, o apresentador lamenta os fatos então narrados e mostrados com riqueza de detalhes, e como que querendo dar uma trégua chama pelos comerciais.

E, entre outros apelos de venda de produtos, lá vem uma mensagem do supermercado Fartura com suas ofertas imperdíveis, a começar pela cerveja em lata “Loira Gelada” a R$ 1,20 a unidade, a vodca “Rasputin” a R$ 21,00 a unidade, e de quebra o sal grosso e o carvão que juntamente com a costela que farão seu final de semana mais feliz.

Voltando a programação normal, recomeça seu trabalho narrando um acidente havido em que uma senhora, já de certa idade, houvera sido atropelada por um carro cujo condutor estava sobre efeito de álcool.

Provavelmente alertado por alguém da produção do programa, mais do que rapidamente lembra aos tele-ouvintes para que, com moderação, não se esquecerem das ofertas do Supermercado Fartura...  

 

   

 

Carlos Roberto de Oliveira

Ao jovem não se deve negar o direito de sonhar, e àqueles que ousam levar adiante seus ideais, dos quais muitos deles são originários de seus próprios sonhos, merecem estes, no mínimo, ser ouvidos.

E como o Brasil, reconhecidamente, sofre já há algum tempo com a falta de lideres efetivamente comprometidos com sua gente de uma forma honesta, eis que, de repente, surge uma jovem adolescente, estudante, 16 anos, Ana Julia Ribeiro, encampando uma causa da qual acredita e, para isto, se põe, simbólica e incisivamente, contra o Estado por entender pertinente sua manifestação.

E ao fazê-lo, em um espaço considerado como a Casa do Povo, feriu suscetibilidades pela contundência de suas palavras.

E o que contestou esta jovem estudante? Simplesmente a sua não representatividade, por quem de direito, pela defesa de seus interesses individuais e coletivos e que estão voltados para a educação publica.

Afinal, se preocupar com a qualidade de ensino e, concomitante, com a possível retração de investimentos nesta área, é um ato de dignidade que deve ser considerado.

O mais importante, ainda, é sua ênfase quanto ao não envolvimento com qualquer movimento político/partidário, e, sim, com a política estudantil, fato este que lhe dá maior credibilidade em sua ação, fortalecendo-a mais ainda como cidadã.

Ah, os bons tempos de estudantes conscientes estão voltando.

Que saudades desse tempo.

Carlos Roberto de Oliveira

Lembrá-lo da passagem do tempo como forma de constrangê-lo ou aborrecê-lo, absolutamente o incomodava, mesmo porque, o que realmente lhe interessava era o desafio de viver o presente com a prerrogativa de continuar buscando razões que o auxiliassem a melhor compreender o processo da vida, questionando-a.

Para isto, necessário se fazia combater seus próprios demônios e não se deixar levar pelo niilismo, algo tão frustrante como a morte.

De sua existência, não tão significativa, e cuja valia pouco acrescentava, desenvolvera um conceito sobre algo que o atraia, a simplicidade.

Na contramão daqueles que fazem apologia da simplicidade utilizando-se de meios tacanhos, em que claramente expõem sua hipocrisia e dissimulação, contestava-os pelo embate do livre pensar, não aceitando seus princípios dogmáticos.

E enfatizava sua posição valorizando a condição da simplicidade como consequência da humildade e da busca do saber, algo dispensável para um mundo dominado pelo ter em detrimento do ser.

Para se atingir a simplicidade, não basta só o simplismo de ter, é preciso ser.     

Carlos Roberto de Oliveira