Durante muitos anos, acompanhar a idade de um veículo era suficiente para estimar sua desvalorização. A cada novo ano-modelo, o mercado seguia um comportamento relativamente previsível, em que veículos novos, seminovos e usados respondiam de forma semelhante aos ciclos econômicos. Esse padrão, porém, começa a dar sinais de esgotamento. É o que revela a 75ª edição do AutoAcrefi, estudo mensal produzido pela Acrefi em parceria com a Cox Automotive, que acompanha a evolução dos preços do mercado automotivo brasileiro.
Nesta edição, o levantamento analisou 23.622 versões de veículos comercializados no País. Em junho, embora o movimento de acomodação dos preços tenha permanecido, ele ocorreu de forma distinta entre os segmentos. Enquanto os veículos 0 km registraram leve recuo médio de 0,05%, os seminovos concentraram a maior pressão sobre os preços, com queda de 0,44%, e os usados recuaram 0,41%. Essa mudança pode ser observada em diferentes recortes do estudo. As oscilações deixam de acompanhar apenas o tempo de uso do veículo e passam a incorporar fatores como tecnologia embarcada, eletrificação, velocidade de renovação dos modelos, disponibilidade de oferta e comportamento da demanda.
Na avaliação da associação, esse movimento reflete um processo de amadurecimento do mercado automotivo brasileiro: a ampliação da oferta de veículos eletrificados, a chegada de novas fabricantes, a evolução da infraestrutura de recarga e a própria transformação do comportamento do consumidor vêm tornando a formação dos preços mais complexa e menos dependente de critérios tradicionais.
“O mercado automotivo deixou de responder de forma homogênea aos mesmos estímulos econômicos. Hoje, a precificação reflete um conjunto muito mais amplo de fatores, como tecnologia, eletrificação, disponibilidade de infraestrutura e comportamento da demanda. Isso exige uma análise mais aprofundada de consumidores, instituições financeiras e de toda a cadeia automotiva, porque cada segmento passou a desenvolver uma dinâmica própria”, afirma Cintia Falcão, diretora executiva da Acrefi.
Segmentos reagem de forma diferente
A acomodação dos preços observada pelo AutoAcrefi deixou de ocorrer de forma homogênea entre as diferentes categorias de veículos. Entre os seminovos, por exemplo, SUVs registraram retração média de 1,07% em junho, enquanto sedãs recuaram 0,29% e roadsters apresentaram leve valorização de 0,05%. Já entre os usados, station wagons avançaram 0,31%, ao passo que SUVs e picapes registraram quedas de 0,80% e 0,68%, respectivamente. As diferenças mostram que o mercado passou a responder de maneira mais segmentada, refletindo características próprias de cada categoria e um ritmo distinto de acomodação dos preços.
Além da tradicional relação entre oferta e demanda, a formação dos preços passou a refletir fatores estruturais, como a renovação dos modelos, a evolução tecnológica e o avanço da infraestrutura voltada à eletrificação. O resultado é um mercado em que categorias semelhantes respondem de forma distinta às mesmas condições econômicas, exigindo uma análise que vai além da idade ou do tempo de uso do veículo.
“A formação dos preços passou a refletir um conjunto amplo de variáveis. Oferta e demanda continuam importantes, mas hoje convivem com fatores como evolução tecnológica, renovação dos modelos e mudanças estruturais do próprio mercado automotivo. Isso explica por que categorias diferentes passaram a apresentar comportamentos cada vez mais distintos”, afirma Cintia.
Recarga acelera maturidade dos elétricos
É justamente nesse contexto que a expansão da infraestrutura de recarga ganha relevância para o mercado automotivo. À medida que a eletrificação avança, a disponibilidade de eletropostos deixa de ser apenas uma questão operacional e passa a influenciar a percepção de valor dos veículos eletrificados, contribuindo para reduzir uma das principais barreiras à adoção dessa tecnologia.
Segundo levantamento da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), em parceria com a Tupi Mobilidade, o Brasil alcançou 25.429 pontos públicos e semipúblicos de recarga em maio de 2026, crescimento de 20,7% em apenas três meses. O avanço foi impulsionado principalmente pelos carregadores rápidos em corrente contínua (DC), cujo número aumentou cerca de 33% no período, passando de 6.479 para 8.606 unidades. Os equipamentos já representam aproximadamente um terço da infraestrutura nacional, contribuindo para reduzir o tempo de recarga e aumentar a atratividade dos modelos eletrificados.
A expansão também deixou de se concentrar apenas nas capitais. A rede de recarga já alcança 1.788 municípios brasileiros, favorecendo a criação de corredores elétricos e ampliando a viabilidade de viagens de média e longa distância. Para o mercado automotivo, esse movimento tende a produzir efeitos que vão além da experiência do usuário. Uma infraestrutura mais robusta reduz a chamada “ansiedade de autonomia”, fortalece a confiança dos consumidores e tende a influenciar fatores como demanda, liquidez e valor residual dos veículos eletrificados no mercado de usados.
Tecnologia amplia diferenças entre os segmentos
Se há alguns anos a idade do veículo era um dos principais parâmetros para estimar seu valor de mercado, hoje essa lógica divide espaço com outros fatores que acompanham a evolução da indústria automotiva. A chegada de novos modelos, a ampliação da oferta de veículos eletrificados e a incorporação cada vez mais rápida de novas tecnologias têm acelerado a renovação do mercado, fazendo com que categorias semelhantes passem a apresentar comportamentos distintos em relação à desvalorização e ao valor residual.
Esse movimento amplia as diferenças entre categorias e reforça que a formação dos preços deixou de depender apenas da idade do veículo. Em um mercado mais competitivo e inovador, tecnologia, posicionamento dos modelos e ritmo de renovação passam a influenciar cada vez mais o valor residual dos automóveis e as decisões de compra, venda e financiamento. “O mercado automotivo vive um processo contínuo de renovação, em que inovação e competitividade passaram a influenciar a percepção de valor dos veículos. Compreender como cada segmento responde a essas transformações tornou-se essencial para interpretar a dinâmica dos preços”, diz a executiva.
Mercado de motos mantém trajetória de estabilidade
Enquanto o mercado de automóveis passa por uma precificação cada vez mais segmentada, o segmento de motocicletas segue sustentado pelo avanço das vendas. Segundo dados da Fenabrave reunidos pelo AutoAcrefi, foram 194.200 motocicletas emplacadas em junho de 2026, alta de 8,28% em relação ao mesmo mês do ano anterior. No acumulado do primeiro semestre, os emplacamentos somam 1.174.459 unidades, crescimento de 14,10% sobre igual período de 2025. A entidade mantém a projeção de expansão de 10% para o segmento ao longo deste ano.
O levantamento também mostra que a liderança permanece concentrada na Honda, com 127.475 motocicletas emplacadas em junho e participação de 65,64% do mercado. A Yamaha ocupa a segunda posição, com 25.569 unidades (13,17%), seguida por Shineray e Mottu, que registraram praticamente o mesmo volume de vendas no mês. Entre os modelos, a Honda CG 160 continua como o principal destaque, com 46.148 emplacamentos em junho e 260.248 unidades no acumulado do ano.
“As motocicletas seguem apresentando uma dinâmica própria dentro do mercado automotivo. A combinação entre crescimento consistente dos emplacamentos e estabilidade relativa dos preços reforça a importância desse segmento para a mobilidade e para o mercado de crédito, especialmente em um contexto de demanda sustentada”, conclui Cintia Falcão.



