Tarcisio Dias - Mecânica Online

Depois de 61 anos, Ford Caminhões abandona o Brasil

O dia 19 de fevereiro de 2019 ficará marcado como um dia triste para o segmento de caminhões no mercado brasileiro.

A Ford Caminhões, que em 2019 estaria completando 62 anos de produção do primeiro caminhão nacional, o F-600, modelo pioneiro que saiu da linha de montagem da antiga fábrica da Ford no bairro do Ipiranga, em São Paulo, em 1957, com, acredite, índice de nacionalização de 40% em peso, anunciou como parte da ampla reestruturação de seu negócio global, que deixará de atuar no segmento de caminhões na América do Sul.

A fábrica instalada no complexo industrial de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, a Ford Caminhões produzia uma gama completa de modelos. Suas duas famílias de produtos, a Série F, com cabine convencional, e a linha Cargo, com cabine avançada, somavam 16 modelos e inúmeras possibilidades de customização, com capacidade de carga de 3,5 a 56 toneladas para diversos tipos de aplicações.

Com o anúncio a empresa encerrará as operações de manufatura na fábrica de São Bernardo do Campo (SP) ao longo de 2019 e deixará de comercializar as linhas Cargo, F-4000, F-350 e Fiesta assim que terminarem os estoques.

A decisão de deixar o mercado de caminhões foi tomada após vários meses de busca por alternativas, que incluíram a possibilidade de parcerias e venda da operação. A manutenção do negócio teria exigido um volume expressivo de investimentos para atender às necessidades do mercado e aos crescentes custos com itens regulatórios sem, no entanto, apresentar um caminho viável para um negócio lucrativo e sustentável.

Em decorrência desse anúncio, a Ford prevê um impacto de aproximadamente US$ 460 milhões em despesas não recorrentes. Cerca de US$ 100 milhões serão relacionados à depreciação acelerada e amortização de ativos fixos. Os valores remanescentes de aproximadamente US$ 360 milhões impactarão diretamente o caixa e estão, em sua maioria, relacionados a compensações de funcionários, concessionários e fornecedores. A maior parte dessas despesas não recorrentes será registrada em 2019 e é parte integrante dos US$ 11 bilhões em despesas, com efeito no caixa de US$ 7 bilhões, que a companhia prevê utilizar para a reestruturação dos seus negócios globais.

Em 24 de abril de 1919, com capital inicial de US$ 25.000, foi criada a Ford brasileira, funcionando na Rua Florêncio de Abreu, em São Paulo, onde eram montados os carros Modelo T. Em 1º de maio, recebeu autorização de funcionamento do presidente da República, Epitácio Pessoa.

Em 1920, a empresa mudou para a Praça da República, no centro de São Paulo.

Em 1921, passou a funcionar em sede própria, na Rua Sólon, no bairro do Bom Retiro, onde foi instalada a primeira linha de montagem de veículos do País, com 124 empregados.

Em 1953, inaugurou a moderna fábrica no bairro do Ipiranga, em São Paulo, dentro do plano de incentivo à indústria automobilística do governo JK, conhecido como GEIA.

Em agosto de 1957, saiu de sua linha de montagem o primeiro caminhão inteiramente produzido no Brasil: um F-600, com motor V8 a gasolina, de 167 hp, com alto índice de nacionalização.

Em 1958, inaugurou a Fundição de Osasco, em São Paulo, com os primeiros fornos elétricos de indução da América do Sul.

Em 1959, lançou o caminhão médio F-350, como motor V8 e 2.670 kg de capacidade de carga.

Em 1960, lançou o primeiro trator brasileiro: o Ford 8-BR Diesel.

Em 1961, ano da inauguração de Brasília, a Ford lançou o primeiro F-600 com motor a diesel, mostrando mais uma vez seu pioneirismo e tornou-se líder de vendas no mercado interno.

Em 1967, adquiriu o controle da Willys Overland do Brasil e incorporou a Fábrica de São Bernardo do Campo, no Estado de São Paulo – onde eram produzidos, entre outros, o Jeep Willys e o utilitário F-75.

Em 1968, a Ford já totalizava 200.000 caminhões vendidos no Brasil e lançou a F-100, primeira picape nacional.

Nos anos 70, com a crise do petróleo, os motores a gasolina perderam terreno e a marca saiu na frente apresentando o F-4000 com motor MWM a diesel.

Em 1974, inaugurou a Fábrica de Motores, Componentes e Fundição de Taubaté, no Estado de São Paulo.

Em 1977, lançou os modelos F-7000, FT-7000, F-8000 e FT-8500, o primeiro cavalo-mecânico da Ford.

Em 1978, inaugurou o Campo de Provas de Tatuí, no interior paulista, o mais moderno do gênero e o único do Brasil equipado para o desenvolvimento de caminhões.

Em 1979, apresentou a picape F-1000 a Diesel.

Em 1985, lançou a linha de caminhões Cargo, projetada pela engenharia brasileira, com cabine avançada e inovações como freios a disco.

Em 1987, passou a operar na holding Autolatina no Brasil.

Em 1991, a linha Cargo foi ampliada com o lançamento dos modelos C-1622, C-2422 6×4 e o cavalo-mecânico C-3530.

Em 1992, apresentou os novos caminhões da Série F.

Em 1993, a Série F ganhou os novos F-4000, F-12000 e F-14000.

Em 1994, a Ford Caminhões atingiu a marca de 1 milhão de veículos comerciais produzidos no Brasil.

Em 1995, a Ford desligou-se da Autolatina e anunciou um programa de investimentos de US$2,6 bilhões no País, um dos maiores da história da empresa no Brasil. Lançou os modelos Cargo C-4030, de 40 toneladas de peso bruto total, e o semipesado C-2425.

Em 1996, lançou os modelos Cargo C-814 e C-4030, que ampliaram a linha para praticamente todos os segmentos de carga, dos leves aos pesados.

Em 1998, lançou a nova Série F, reestilizada com o modelo leve F-350 e o semipesado F-16000, além da picape F-250.

Em 2000, a linha Cargo foi reestilizada em todos os modelos.

Em 2001, inaugurou a nova Fábrica de Caminhões em São Bernardo do Campo, SP, com conceitos avançados de Produção e um investimento de US$ 200 milhões, e lançou o modelo Cargo C-1630, estradeiro com capacidade para 43 toneladas. No mesmo ano, a Ford transformou sua área de caminhões em uma unidade independente de negócios, separada de automóveis, com autonomia para o desenvolvimento de produtos e estratégias de mercado.

Em 2002, lançou seis novos caminhões Cargo, os semipesados C-1721, C-1722, C-2622, C-2626 e C-2631 e o cavalo-mecânico C-4031.

Em 2003, lançou o cavalo-mecânico Cargo 4331 MaxTon, de 43 toneladas, e os modelos MaxTruck.

Em 2005, chegaram os Cargo com motor eletrônico. O leve C-815e e os médios C-1317e, C-1517e e C-1717e foram os primeiros. Em seguida, vieram o médio C-1722e; os trucados C-2422e e C-2428e MaxTruck, 6×2; os traçados C-2622e, C-2628e, C-2632e, C-2932e e C-5032e, com tração 6×4; e o cavalo-mecânico C-4432e. O F-4000 e o F-350 também ganharam novo motor, mecânico, adequado à norma de emissões Euro III.

Em 2006, foi inaugurado o Mod Center, o único centro de modificação de caminhões do Brasil a funcionar dentro da fábrica, para a produção de veículos personalizados.

Em 2007, a linha Cargo foi ampliada com dois novos modelos: o leve C-712 e o cavalo-mecânico C-4532e.

Em 2009, trouxe o pesado Cargo C-6332e a linha de vans e furgões Transit.

Em 2011, apresentou o Novo Cargo 2012, com cabine totalmente nova e moderna, de conceito global, com 11 modelos de 13 a 29 toneladas, sendo cinco com opção leito: Cargo 1317, Cargo 1517, Cargo 1717, Cargo 2622, Cargo 2628 e Cargo 3132, com cabine simples; e Cargo 1722, Cargo 2422, Cargo 2428, Cargo 1932R e Cargo 1932 com cabine regular ou cabine-leito.

Em 2013, lançou os caminhões extrapesados Cargo 2042 e Cargo 2842, completando a oferta da marca para atender todos os segmentos do mercado.

Em 2014, lançou os chamados modelos vocacionais: o leve Cargo 1119 e o Cargo 1723 Kolector para coleta de resíduos, o Cargo 2629 Mixer para betoneira e o estradeiro Cargo 2429 6×2 com transmissão de nove marchas. Apresentou também a nova Série F, com os tradicionais modelos F-350 e F-4000.

Em 2015, a Ford comemorou a produção de 400.000 caminhões na Fábrica de São Bernardo.

Em 2016, lançou quatro novos modelos com a linha Cargo 2017: Cargo 1419, Cargo 1519 e Cargo 3129, incluindo a versão Mixer para concreto. No mesmo ano, chegou a linha Cargo Torqshift com transmissão automatizada, composta por seis modelos: Cargo 1723 Torqshift, Cargo 1723 Kolector Torqshift, Cargo 1729R Torqshift, Cargo 2429 Torqshift, Cargo 1729T Torqshift e Cargo 1933T Torqshift.

Em 2017, lança a nova assinatura da marca com foco no pós-venda, “Seu mundo não pode parar”, apresenta os novos modelos vocacionais e o protótipo do Cargo Connect.

Em 2019 a marca anuncia que a empresa encerrará as operações de manufatura na fábrica de São Bernardo do Campo (SP) ao longo do ano e deixará de comercializar as linhas Cargo, F-4000, F-350 e Fiesta assim que terminarem os estoques. Chega ao fim uma bonita história de evolução, tecnologia e capacidade humana na produção de produtos de qualidade.

Nos sensibilizamos com os mais de 3.000 funcionários da Ford Caminhões nesse momento de tristeza, de perda da sua atividade profissional, desejando que tão logo possam conquistar uma recolocação nesse difícil mercado brasileiro.

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