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Estudantes de Medicina mudam a rotina e a economia de Foz do Iguaçu 

“Desde 2016 percebemos uma maior frequência de estudantes no nosso supermercado. A vinda deles movimenta a economia, seja no comércio, na prestação de serviço e, sobretudo, no setor de imóveis”, afirmou Clauri Ferrari, gerente do Supermercado Muffato. 

Não é à toa que pequenos hotéis estão sendo transformados em pensões. Os alugueis dos quartos não são mais diários, mas mensais. Empresários estão construindo prédios com apartamentos de um quarto para atender a esse público que cresce a cada dia. Outros, que construíram quitinetes pensando em alugar para iguaçuenses, se surpreenderam com os inquilinos.

Samuel Félix é um deles. No início de 2016 terminou a construção de quatro quitinetes na região central de Foz. Nem chegou a anunciar. Um conhecido indicou para um jovem que estava vindo de São Paulo para morar em Foz e estudar no Paraguai. “Ele foi o primeiro, depois, em poucos dias, os próprios colegas de faculdade se interessaram. Hoje, parece uma república de estudantes”, contou. 

Ettore Mori, o primeiro inquilino, veio sozinho. Mas meses depois, os pais deixaram São Paulo para aproveitar as oportunidades do país vizinho. Hoje moram em Ciudad del Este. “Eu já tinha faculdade de Educação Física, mas sempre sonhei em ser médico. No Brasil seria impossível. Acabei convencendo meus pais, e, aqui estamos, há quase dois anos”. 

Liana Guimarães, mais conhecida como Liah, tem 38 anos. Já tinha uma vida estável em São Paulo, era enfermeira, mas como boa parte das enfermeiras, apaixonadas pela área da saúde, queria ser médica. E acabou aliando o sonho aos pedidos da sobrinha Eduarda, de 18 anos, a vir com ela, para cursar Medicina no Paraguai. “Estou adorando o curso. No primeiro ano não foi fácil, pois nunca tinha tido contato com o espanhol. Agora, já estou mais acostumada”. 

Andressa França veio do Maranhão. Desde a infância queria cuidar de pessoas. Muitas vezes, utilizava as bonecas como pacientes. Primeiro tentou no Brasil, fez o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) várias vezes, mas a nota foi insuficiente para ingressar em uma faculdade de Medicina. Depois, tentou estudar na Argentina, no final, acabou optando pelo Paraguai. Agora, no terceiro ano, ela acredita que o sonho está bem mais próximo de se tornar realidade. “Só vou embora com meu diploma na mão. O que parecia utopia, agora, está perto do real”. 

Impossível no Brasil

O impossível para Ettori, Andressa, Liana e Eduarda, assim como para tantos outros, está na grande concorrência dos vestibulares nas universidades públicas e, no caso das privadas, o valor. O preço da mensalidade no país vizinho e quase 10 vezes menor se comparado ao brasileiro. “O valor que gastamos nas nossas duas mensalidades, mais o custo para morar em Foz é, ainda, menor se comparado ao valor de São Paulo”, contou Eduarda Guimarães.

Compensa estudar no Paraguai?

Dr. Besaleel e o pequeno Antonio Rodrigues Zvir

Embora tenha levado muitos anos para conseguir o registro de médico, no Conselho Regional de Medicina (CRM), o ginecologista e obstetra, Besaleel Dias, afirma que sim. “Quando comecei a faculdade em 1992, meu pai era sapateiro e não tinha condições de pagar um curso de Medicina no Brasil, então, descobri Villarrica, no Paraguai (distante 240 quilômetros de Foz do Iguaçu). Foi a solução para mim”, relembrou. Na época, atravessar a fronteira para estudar não era muito comum. “Éramos uns cinco brasileiros. Bem diferente de hoje. Não era fácil”.

Dr. Besaleel e Dra Ana Brito, com a pequena Ana Rodrigues Félix

Segundo Dias, a pouca procura era justamente pela dificuldade de validar o diploma. A prova do Ministério da Educação, o Revalida, para quem cursou medicina fora do Brasil e poder atuar como médico no país, era muito burocrática, complicada e cara. E era feita a cada cinco anos. Muitos documentos precisavam ser traduzidos do espanhol para o português. “Cheguei a transferir o curso para universidades brasileiras. Queria concluir no Brasil, mas não deu. Acabei me formando no Paraguai. Depois de formado precisei esperar cinco anos para fazer a prova. A vantagem é ter estudado muito”, contou. 

A prova da recompensa. Ele é o financiador e o grande incentivador do filho, Besaleel Filho. “Hoje, além de vários convênios entre os dois países, fazer a prova ficou muito mais simples”. Basta pagar inscrição que nas duas fases, somam pouco mais de R$ 600. Ainda há cursos preparatórios. 

“Não passei, não estou passando e, com certeza, não passarei pelas dificuldades pelas quais meu pai passou. Mas, até por isso, eu o admiro muito. Um vencedor. E um grande médico”, disse Filho. 

De acordo com Filho, mais importante que pensar no CRM, é estudar em uma boa faculdade é ter bons professores. E sobretudo, gostar da profissão. Ser médico é quase um sacerdócio. É uma paixão. Um vício, pois o trabalho é árduo. Nos primeiros anos, passa maior parte do tempo no trabalho, que com a família. “A minha faculdade é muito boa. Vou me formar em 2018 como cirurgião geral, mas depois, quero fazer especializações no Brasil”. 

 Por Abilene Rodrigues

* Dado da Quality Cursos 

 

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